A leitura do poema Cruzada das Crianças (B. Brecht) na aula da Prof. Ingrid Koudela (dia 25 de agosto) me remeteu ao filme Crianças Invisíveis (All the Invisible Children, 2005, diversos diretores) . Lembrei-me, particularmente, de uma das histórias ali contadas ("Jonathan", do diretor Ridley Scott), de uma certa forma, uma ilustração do referido poema de Brecht.
CRUZADA DE CRIANÇAS
(Bertolt Brecht)
Na Polônia, no ano de trinta e Nove
Houve uma luta cruel
Que transformou cidades em cinzas
Em cor de chumbo o azul do céu.
A mulher perdeu o marido
A irmã despediu-se do irmão
Os pais deram falta dos filhos
Em meio ao fogo e à destruição
Da Polônia nada mais veio
Nem carta nem relatório.
Mas nos países vizinhos
Corre uma estranha estória.
A neve caía quando contaram
Numa cidade do leste europeu
Sobre uma cruzada de crianças
Que na Polônia aconteceu.
Por lá vagavam meninos
Famintos pelas calçadas
E a eles juntavam-se outros
Vindos de aldeias arrasadas.
Queriam escapar à chacina
A todo aquele pesadelo
E alcançar um dia um lugar
Onde a vida não fosse um flagelo.
E logo um pequeno líder
Entre eles aparecia.
Para ele o grande problema
Era o caminho, que não sabia.
Uma garota levava um bebê
De dois ou três anos, não mais
Tinha o carinho de uma mãe
Faltava uma terra onde houvesse paz.
Um pequeno judeu num bonito
Casaco com gola de veludo
Habituado a comer pão do mais branco
Marchava junto, agüentando tudo.
E um magro, de cabelos louros
Ficava pra trás, não dava na vista
Carregava uma culpa bem grande:
Vinha de uma embaixada nazista.
Havia também um cachorro
Levado para servir de jantar
Que passou a ser mais uma boca:
Não tinha coragem de matar.
E uma escola chegaram a criar
A professora sendo a mais crescida
No flanco de um tanque arruinado
Um aluno escreveu a palavra vida.
Houve também um romance
Ela com doze, ele quinze.
Num sítio abandonado
Eles se amam não fingem.
Mas o amor não podia ser.
Inverno não é tempo de amora.
Como podem os brotos florescer
Com a neve caindo lá fora?
Houve também, um enterro
De um garoto bem trajado.
Por alemães e poloneses
Seu caixão foi carregado.
Protestantes, nazistas, católicos
Juntos o entregaram à terra
E um pequeno comunista falou
Rezando pelo fim da guerra.
Ele tinham fé e esperança
Só não tinham o que pôr na barriga
E ninguém censure, se roubaram
De quem não lhes dava abrigo.
E ninguém censure o pobre homem
Que não os convidou para a mesa.
Para alimentar cinqüenta é preciso
Mais que coração, riqueza.
Eles buscavam rumar para o sul
Onde o sol brilha duradouro
E fica no meio do céu
Como uma bola de ouro.
Acharam um dia um soldado
Ferido no bosque, sozinho.
Dele cuidaram uma semana
Dele aprenderam o caminho.
Vão para Bilgoray, disse ele.
A febre o fazia delirar
Deixou-os no oitavo dia
Também ele foi preciso enterrar.
E viram placas nas estradas
Embora de neve cobertas
Mas estavam todas trocadas
As direções não eram certas.
Não era por simples brincadeira
Que os homens do exército as trocavam.
Mas os meninos nada sabiam
E Bilgoray não encontravam.
Pararam em volta do líder
Que sondava o horizonte
E apontando com o dedo falou:
Deve ser além do monte.
Uma noite viram fogos
Luzindo ao pé de um rochedo
E viram tanques passando:
Afastaram-se com medo.
Ao deparar com uma cidade
Fizeram uma grande curva.
Até que ficasse para trás
Andaram somente na noite turva.
Onde fora o sul da Polônia
Sob uma tempestade forte
Foram vistos pela última vez
Abandonados à própria sorte.
Se fecho os olhos um instante
Já os tenho na imagem
De uma devastação a outra
Errando pela paisagem.
Acima deles, nas nuvens
Vejo outros cortejos, monstruosos!
Arrastando-se no vento frio
Pequenos seres desterrados, andrajosos.
Buscando um país de paz
Sem trovão, sem chuva de fogo
Diferente do que ficara pra trás
Nele esperam chegar dentro em pouco.
Essas hostes não param de crescer
E me parecem mudar, na luz do poente:
Outros rostos creio reconhecer
Franceses, espanhóis, orientais: gente.
Na polônia, naquele ano
Um cão foi encontrado
Que no pescoço magro trazia
Um pedaço de couro amarrado.
Nele se lia: Socorro, por favor!
Estamos perdidos, sem esperanças.
O cachorro mostrará o caminho
Somos cinqüenta e cinco crianças.
Se não puderem vir
Não lhes façam mal
não o matem, pois
Só ele sabe o local.
Camponeses leram a mensagem.
O escrito não tinha nome.
Desde então dois anos passaram
O cachorro morreu de fome.
Saiba mais sobre o filme no seguinte endereço: omelete.com.br/cinema; ou em:
cinemacomrapadura.com.br; ou ainda em: universia.com.br
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